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A morta e os dois irmãos, parte II - Mario Loff

Tenho medo da medida do badio para esquecer uma mulher. Comentou no seu tumulto, ao ser deixada para trás.

Um desses meninos é o doutor que está á frente do reaparecimento do caso, logo ele que assiste ao nascimento dos homens bem limpos, pequeninos e prontos para ver os senhores grandes que fizeram coisas perpetradas quando o pensamento sai de um estado sem diálogo e cheio de ódio, coisas escrachadas pela humanidade. 

Tossiu longamente a Menininha, esticou na cama e os nervos esticaram no pescoço e entra-lhe pela cabeça adentro, depois se desfaz como se fosse um recém-nascido que saiu do útero e o calor que lhe tira águas pela cara poderia ser o lodo da bolsa que estoira, mas, a dor começa a invadir-lhe o corpo e ela grita e pede a presença novamente do companheiro. 

— Quero falar contigo. 

Diz com muito esforço e a voz lhe parece que em vez de sair, entra, como se a vida engordasse no seu próprio corpo e a alma luta para sair do mundo, a dor empurra os dois numa luta intensa para se sentir quem vença, o médico e o companheiro que entra na sala percebe, pela condição da mininha que a morte é um jogo que sempre vence qualquer ser humano e ela é o melhora sempre no mundo quando o ato é roubar e perder. 

Ela vê o companheiro e sorri com uma lágrima que saiu naturalmente na outra ponta do olho e lhe faz sinal para chegar até à sua boca no ouvido dele. O doutor saiu a pedir licença, que podiam ficar à vontade. 

— Doutor, já falamos e estamos entendidos? 

O doutor vira e confirma a mulher com a cabeça que aproveita e fala nos ouvidos do companheiro enquanto a porta bate e faz um barulho que se propaga no vento e provoca um pequeno estampido que sibila no ouvido do companheiro que após ouvir o que a companheira lhe diz nos ouvidos ele dá passos para trás, olhando de forma feroz para a mulher que o observa com a cara tão perto e o olhar tão inexistente que já não cabia em lugar algum. 

— Como tinha pensado, há mais de trinta anos, Deus fez as mulheres e mete dentro delas um diabo de cara linda, mas a mulher educa os seus diabos; ao dar à luz, ela entrega uma metade ao homem, outras vezes, constrói um diabo pacífico e mete uma mulher dentro dele, essas últimas são menos celestiais.

O companheiro, depois de ouvir a mulher e ter dado uns passos para trás, observou fixamente nos olhos fundos dela, deu mais um passo para trás e lamentou. 

— São trinta anos de dúvidas, são trinta anos a roer por dentro de culpa por cometer um ato diabólico em defesa do que era chamado de honra, só por tua causa, mesmo assim fiquei contigo, e agora escuto isso! 

— Desculpa, marido, não podia dizer mais nada, seria mais tragédia na família, quando nós mudamos para outra cidade decidi mudar e ser o que fui até hoje, somente a sua mulher. 

— Você, nunca mudou, só se adotou as normas do povo para que não falassem de ti. Então diga-me uma coisa? E as missas que tu ias? E os terços a que ias? Era a sério? 

— Marido, estou no final da vida, serei leal contigo, quando foste fazer carta no Mindelo e trouxeste-me para o interior de Santiago, nem fazia a ideia de existir um lugar de miséria mais, pior de onde eu nasci, esses dois mundos, mas badio é sempre badio, e eu nunca serei uma badia, por isso, paguei a penitência de ser religiosa, fazer o que as senhoras do bairro faziam, na verdade, nem quero que isso me salve, vivi bem, só lamento nunca ter tido filhos e lamento isso de verdade, queria dar-lhe filhos e nunca te trair, mas não sou mulher de ficar à espera de emigrante e sabia-se não sairia da minha ilha, porque voltar naquela época era mais difícil que ir até o fundo da casa numa noite de tragédia que morreu alguém. Marido, lamento muito, mas, nada de badio e da igreja me fazia ser o que sou, só me submeti àquilo para reparar a vergonha que ti fiz passar. 

— São trinta anos de mentira e fingimento. Pois, que morras aqui, farei de tudo para que ninguém da minha casa e do meu sangue se lembre de ti. Morra, morra. 

A Menininha ouviu calada, observou o marido na cara e o seu movimento a abandonar o quarto e nem se mexeu, não fazia diferença alguma dizer qualquer coisa naquele momento e naquele cenário no final da vida. 

O marido, já no corredor, miseravelmente abalado e a tentar disfarçar como se um homem naquela idade não pudesse dececionar-se ao descobrir que, afinal, quando foi defender a honra com a morte fez algo errado. O que acabou de ouvir da mulher o matou mais ainda por dentro. Chegou nos familiares, olhou nos olhos dos sobrinhos que escolheu como filhos e ordenou que abandonassem aquele lugar. Saíram rapidamente e comentou com os restantes

familiares no corredor que foram até janela da paciente e ouviram parte da conversa. Lamentaram com a cabeça. Saíram do hospital em direção à paragem de carros que dá acesso ao interior e proibiram todos os conhecidos da família de ir lá, há quase dois anos que frequentavam o hospital e visitavam a Menininha, e para nunca mais tocarem no nome e no assunto condizente a Menininha. 

— Tenho medo da medida do badio para esquecer uma mulher. Comentou no seu tumulto, ao ser deixada para trás. 

Jamais se ouviu nome da Menininha pela cidade de principal até Txan de D´orta, quando faz vento, todas as roupas permanecem fixos e as da Menininha são arremessadas para boronsera, com lixívias, creolinas, lavaram todos os santos da casa e eliminaram todos os cheiros dela, recomendaram curandeiros que vertia o amor em desamor. Chamaram os padres brancos e padres pretos para benzerem a casa e fazer guardas de proteção. Por último, rezaram dois anos inteiro sem parar sem citar o nome da Menininha até que naturalmente deixaram de lembrar do nome, da cara e de indivíduos daquela raça. 

Na última noite, quando chegou o padre para averiguar a residência, não encontrou a casa e nem reconheceu o marido da Menininha e os familiares, ficou-lhe na ideia que trouxera a mensagem de que existia uma morta indigente largada para trás. Quando abandonou a casa do marido da menininha quando ia embora lembrou da casa e da família, e voltou. Quando chegou perto já tinha esquecido tudo até as suas caras. 

Comentava o marido no parapeito. 

Não se preocupem, a reza foi braba e as medidas foram bem tomadas., no entanto, não conseguia lembrara do nome da menininha e nem da sua existência. 

Por dias esperaram a morte dela. Resistia dia após dia. O doutor chegava nela falavam e depois o doutor voltava a ler o livro até ao dia em que ele tinha que partir para a sua ilha de São Vicente para começar a exercer num novo hospital. Quando chegou de manhã para se despedir e relatar-lhe sobre o livro, ela já tinha sido enviada para a casa mortuária. Lamentou muito e comentou com colegas que a senhora era a anfitriã dos dois irmãos e que um pôs termo à vida do outro. No entanto, a pessoa que morreu com a culpa não era o irmão. O espanto se sente pelo som o pelo estado da cara.

— Mas quem foi? Quem foi? 

Era a pergunta recorrente que se espalhou no hospital. Porém, o médico já estava apressado para chegar à sua ilha depois de muitos anos longe e se recusou a contar sobre o assunto em respeito à morta. Mas deu indicações onde poderiam perceber o comportamento da morta e o que era a morta. Abriu o livro pela capa e indicou o lugar onde poderia ser adquirido e lido. Se mostraram interesse pelo caso, a obra ainda atiçou a curiosidade das pessoas.


Mario Loff

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Dexam Sabi Cabo Verde: A morta e os dois irmãos, parte II - Mario Loff
A morta e os dois irmãos, parte II - Mario Loff
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