Eu tocarei para a Graciosa. Imploraremos à montanha e aos deuses que residem entre essas rochas.
O Despertar da Graciosa
Diante da majestosa Graciosa, erguida como um guardião impávido sobre o vale, sua presença silenciosa e misteriosa cativa o olhar. Durante o dia, sua forma evoca a imagem de um antigo gigante em fuga do fogo, cujo corpo se transformou em cinzas para renascer como uma montanha de terra, pintada pelas pinceladas matizadas do tempo. Ao seu redor, o mar dança como uma amante serena, acalentando o vulcão adormecido em seu âmago, mergulhando nas águas cintilantes do verão para reviver o calor antes do crepúsculo, espalhando suas memórias pelas varandas ao entardecer.
Desde tempos imemoriais, dois vales foram moldados pela história: ao norte, a exuberante Lagoa do Norte, onde a vida fluía sem grandes necessidades, sempre preferida à Lagoa do Sul. Esta última, envolta por areias douradas e palmeiras altivas cujos cocos raramente frutificavam, abraça uma praia de águas límpidas, convidando a mergulhos prolongados.
Apenas duas almas habitam a solidão da Lagoa do Sul, guardiãs de narrativas ancestrais que ressoam entre os vales. Contam elas que, quando os dinossauros sucumbiram às mudanças climáticas e aos fogos celestes, um gigante conseguiu escapar, trazendo consigo uma criança destinada a unir os vales em tempos de desafio e calamidade.
A disseminação dessa saga ao longo dos séculos instilou temor nos corações das pessoas da Lagoa do Sul, levando-as a buscar refúgio na Lagoa do Norte, enquanto os contadores de histórias permaneciam solitários, aguardando a concretização do mito. Enquanto isso, os habitantes do vale norte viviam despreocupados, consumindo em excesso, desperdiçando água e esgotando os recursos naturais, transformando o paraíso em um cenário de desolação e descaso. Gradualmente, começaram a ouvir o som da cimboa e do batuque, proveniente do vale sul, que se prolongava pela noite, reduzindo o caudal das levadas, esgotando as tubagens e provocando a morte dos peixes nas lagoas e no mar. Um odor a enxofre pairava no ar, acompanhado de um calor intenso diário. A sombra da escassez pairava sobre as casas, forçando os habitantes a vasculharem os restos nos montes de lixo em busca de comida e água.
Um som suave e íntimo daquelas gentes suou no vento. Quando o ritmo do batuque e da cimboa cessou, um desânimo profundo invadiu o vale do Norte, deixando suas marcas especialmente nas crianças, as primeiras a sucumbirem à fome e à desnutrição.
Xico Pio, líder do vale, convocou uma reunião na praça do Sobral para deliberar sobre o futuro incerto. Era nos momentos de carência, quando o estômago roncava e os bolsos se esvaziavam, que as pessoas verdadeiramente se uniam em busca de soluções. Enquanto debatiam entre as ruas da praça, o som do batuque retornou, acompanhado pela melodia da cimboa e pelas vozes distantes de Dona Nha Bibinha Cabral e Nhô Arike, clamando pelo retorno ao vale sul, pois o mito estava se realizando. Xico Pio observou atentamente, ciente da urgência por comida e água. Ouvindo a música ecoar pelo vento, todos ficaram estupefatos ao perceberem que ela emanava do coração do Monte Graciosa.
— Como podemos nós, famintos e sedentos, partir para o vale sul, onde a falta é ainda mais premente? - questionou Xico Pio.
Nhô Arike respondeu:
— Eu tocarei para a Graciosa. Imploraremos à montanha e aos deuses que residem entre essas rochas. Resta-nos sonhar, contemplando o íngreme perfil da montanha. Nossos olhos alcançam apenas até o horizonte da rocha; além dali, apenas o céu. Cabe-nos sonhar e suplicar, como crianças, com sinceridade e urgência. Temos sido negligentes e pecadores em relação à natureza generosa que o monte nos oferece.
Dona Nha Bibinha acrescentou:
— Nossos olhos só vislumbram o horizonte que se estende até as rochas; além delas, só o vasto céu. Resta-nos sonhar e suplicar, como crianças, com humildade e sinceridade. Temos sido negligentes e cruéis com a natureza que tão generosamente nos acolheu.
Naquela noite, uma quietude densa se instalou sobre o vale sul, sem música, sem o som do mar, apenas o presságio sombrio de um futuro incerto. E, lentamente, com a chegada do dia, a única melodia que rompeu o silêncio foi o ranger da tarrafa, como se o próprio vale estivesse despertando para uma nova realidade. A personagem, ao despertar, encontrou-se em meio a um cenário surreal: ao bater nos corpos inertes das pessoas, percebeu que estavam todos mortos e, ao tocar o chão, concluiu que estava em uma imensa jazida de açúcar. Olhando para a montanha, avistou uma quantidade incontável de pães e rochas que se transformaram em cuscuz. Uma alegria efêmera invadiu seu coração ao se dar conta da generosidade da Graciosa, mas logo foi substituída por uma tristeza avassaladora ao se ver sozinha em meio àqueles corpos sem vida, lamentando a perda de sua filha.
Nesse momento solene, um estrondo ecoou pelos céus como se as próprias divindades anunciassem a chegada de algo sagrado. Gilica, sem temor, contemplou uma luz rubra irrompendo, e dela emergiu a figura graciosa de uma menina, vestida de azul e adornada com laços na cabeça, entoando Finasom ao som de um violino. A mulher, ajoelhada na areia, derramou lágrimas de alegria como se estivesse recebendo sua filha recém-nascida, estendendo os braços amorosos para acolhê-la.
— Minha filha, chorei tanto por tua ausência. Como és capaz? Apareces entre estas rochas? — indagou Gilica, mas a menina permaneceu silente. Toda a resposta que necessitava para quebrar os encantos da montanha estava contida naquela cimboa.
Então, a menina se desvencilhou dos braços maternos e começou a tocar entre os corpos inertes, buscando a melodia que a libertaria. A cada nota, a Graciosa se abria um pouco mais. Tocou por horas a fio até que, tomada pelo susto e pela tristeza, cessou, lágrimas borbulhando em seus olhos. Sua mãe compreendeu que havia uma promessa que a montanha fizera à sua filha, e novamente se ajoelhou, suplicando aos deuses além do horizonte que libertassem sua querida criança.
Inspirada pela coragem de sua mãe, a menina retomou sua cimboa, dedilhando com os olhos cerrados. E então, as chuvas desceram dos céus, alimentando os rios que fluíam em direção à Lagoa do Norte. A magia envolveu o vale enquanto a menina entoava batuques e Finason, unindo as duas lagoas como irmãs gêmeas. A música ecoava nos ouvidos dos que despertavam, e estes aplaudiam a jovem enquanto a fenda na Graciosa se cerrava.
Ao amanhecer, nenhum clima de festa pairava no ar, nem mesmo as vivazes celebrações que outrora enchiam de alegria a vida no vale do norte, agora transformado em um vasto mar. Enquanto as pessoas se alimentavam em silêncio, Xico Pio e Gilica lamentavam os anciãos que não retornaram, mas ergueram um pequeno monumento no cume da Graciosa em homenagem a eles, os primeiros guardiões do mito da montanha.
Desde então, a jovem Cinde Núbia seguia uma rotina matinal, trocando afagos com sua mãe Gilica antes de partir para tocar cimboa aos pés da Graciosa. Enquanto interagia com a montanha, ouvia os sussurros de seus conselhos:
— Cinde Núbia, jamais abandones esta canção e sua melodia. Ela pertence somente aos guardiões do vale do sul.
Dia após dia, desde a aurora até o ocaso, Cinde Núbia se dedicava a essa tarefa, retornando para casa apenas ao anoitecer, onde convivia com sua mãe e os demais habitantes do vale. Com o passar dos anos, ela se tornou uma mulher forte e sábia, eventualmente ascendendo à posição de líder de seu povo. Após o massacre que abalou a comunidade, aprenderam a viver em harmonia, seguindo as regras de convivência e consumindo apenas o necessário para garantir a sobrevivência e a prosperidade de todos.
Fim
Mario Loff
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