Sempre achei que, quando uma mulher aceita casar com um homem, deveria, em primeiro lugar, recusar a cedência do seu nome e do seu apelido.
No centro da cidade, dois amigos funcionários municipais conversavam e comentavam sobre a chegada dos rapazes, alguns vindos dos arredores da cidade, outros depois de um árduo dia de trabalho com remos e facões em mãos.
—É uma azáfama, sim, comentou o varredor das ruas da cidade, o senhor Litxi Preta, varrendo com firmeza contra a terra e os primeiros basaltos colocados no centro da cidade, formando a calçada. Ele observou o amigo e afirmou, convicto do bom trabalho feito nas estradas:
–É nosso, disse o senhor Pantaleão, um homem alto envolvido nas causas municipais.
—O teu nome desperta muita curiosidade!, brincou Litxi, atravessando corajosamente a rua ao lado do amigo, seguindo pela via que levava à casa de cinema. No entanto, o cheiro dos pães era uma tentação que rivalizava com a arte do Leão, um homem com "leão" no nome. Os Pães de Papacho tinham esse poder de transformar as pessoas pelo nome.
—Um homem com fome se chama 'homo' e não se lava, e quando está saciado passa a chamar-se homem; mas é magnífico ver os senhores que se formam nas filas à procura do trigo fermentado pelas mãos de Papacho, parece Cristo.
Sem muitas descrições para manter o costume antigo, o homem cheiroso na fila respondeu, – melhor dizer 'ancieni'", palavras sempre repetidas pelo imigrante francês que voltou após quinze anos em França.
–Nunca mandou nada para a terra, só dava desculpas de que Tarrafal está longe.
De seguida o imigrante retorquiu, enquanto Litxi ouvia, – Imagine eu saindo de lá para a Praia, da Praia para Portugal, e de Portugal para França. Quem vai lembrar do norte da ilha de Santiago desde o norte da França, apenas aqueles que ainda vão de encontro ao pão de Papacho, a única coisa que vale a pena depois da tarde, disse o imigrante nos botequins nos arredores do Bar Marselha.
—Tudo o que ganhou está na sua boca.
Antes, ele unia belas palavras, quase iluminadas, quase trazidas das cidades da luz. Teve filhos e filhas, mas também ouviu críticas; diziam que era um filho da palavra feia. Sua boca está cheia de dentes de ouro, com dois faltando devido a um ataque sofrido na cidade da Praia, num jogo intenso de batota. Pagou com dois dentes e alguns tabefes por ter negado que é de Tarrafal, onde quem é de fora é tratado com distinção. O que é dito passa ao clarão da vida e o que é feio também vira gostoso, e ponto final, era a filosofia de rumba e Buluria que palavras espalhava no ar, os presentes pouco ou nada entendia as filosofias desconexas.
—Às sete da noite, abria-se a porta da casa de cinema, todo o mundo acalmava-se naquele momento. E outros que chegavam com suor escorrendo e o odor do sovaco, e alguns rapazes do mangue com cheiro a milho guardado no bolso do casaco do pai velho, destacavam-se à distância e sempre em grupo. Os de arredores da cidade em outro grupo, mais perto da entrada, os pescadores que se movem descalços com calças largas e cabeleiras grandes, com tantas palavras desajeitadamente desagradáveis saindo normalmente das bocas levadas pelo vento e aguardente com dentes líquidos de cana passada por um trapitxi.
—O senhor da perestroika abre a porta, primeiro chama o Mário Tucha para guardar a porta até voltar e dá-lhe uma recomendação.
—Meu filho, não deixes entrar ninguém sem pagar, mesmo que seja a tua mãe.
O rapaz Mário ouviu, concordou com a cabeça e ficou a cargo da porta. Cobrou todos os bilhetes com um ar sério e uma pequena navalha presa ao cinto. Os rapazes entraram de forma calma e ordeira, incluindo o Buluria, com a sua cabeça quente, e o Domingo Cabalo Barulhento e o rumba com a cabeça larga. Assistiram ao filme, dormiram durante meia hora e então ouviu-se um tiro, primeiro tiro no filme depois de quase quarenta minutos.
Todos acordaram comentando:
—Agora é que vai ser bom de verdade.
Alguns já estavam meio esfomeados, mas o filme era romântico e o ator principal era um senhor deficiente de pé e braço e na maioria permanecia calado. E o Damaja ao ver a sua cara e observa a sua própria mão e diz:
—Não servem, para nada , nem para fazer uma puxação, mãos bestas.
De repente a luz foi embora e tudo ficou escuro. Os rapazes sentiram-se enganados pelo cartaz, especialmente o Buluria, que pensou ter sido roubado. Pegou sete bancos de uma vez para lançar ao ar, mas alguém percebeu algo estranho no escuro, era a luz que voltara. Ele ficou ali no meio dos homens, com o grande banco, envergonhado, e justificou-se.
—Bem, já os carreguei e vou despejá-los.— E dali até à rua, o senhor da 'perestroika' ouvia o barulho. Ele acabara de voltar da casa de uma senhora que encontrou na rua e se "fez ao café, viciou-se naquilo e na sua cama. Correu para a porta para forçar a entrada, mas Mário bloqueou-o.
—Mas, Mário, sou eu?
—Eu sei. — Respondeu Mário.
—Então, deixa-me entrar?
—Não vou deixar entrar nem a minha mãe, muito menos o senhor. Julgas que és mais importante que a minha mãe?
O homem refletiu sobre a tarefa dada a um pescador.
—Eles levam tudo muito a sério, pá.
Vinte minutos depois, o filme terminou, com os rapazes resmungando sobre um filme sem qualidade porque não teve caraté e nem tiros e guerras, nenhum homem a fumar um bom charuto, nada dos Raston Bedju. Para encerrar a noite, foram até à casa do Nhu Papacho para aquele pão, a terminar a noite. Litxi e Pantaleão saíram em silêncio e Pantaleão estava a pensar sobre o casamento de acordo com o filme assistido.
—Foi bom, não foi, Senhor Pantaleão?
Ele olhou de soslaio para Litxi e esticou as mãos ao passarem ao pé da igreja onde os primeiros fiéis acabaram de rezar pela sua alma.
II
— Sempre achei que, quando uma mulher aceita casar com um homem, deveria, em primeiro lugar, recusar a cedência do seu nome e do seu apelido. Isso é uma submissão legalizada. A primeira insubmissão da mulher perante o homem deveria ser essa: negar a perda do apelido. Quando perde o seu apelido, perde um pouco da sua identidade, um pouco dos lábios, um pouco do corpo, um pouco das saias, um pouco das costas nas tinas. Ela ganha um certo prêmio num novo apelido, legalizado. O casamento melancoliza, é um ato feliz para quem assiste. Num certo momento da vida, Simone de Beauvoir terá toda a razão — disse o senhor Pantaleão, enquanto observava o movimento tranquilo das ruas ao cair da noite.
Litxi, seu amigo de longa data, soltou uma risada baixa.
— Sempre com essas ideias complicadas, Pantaleão. Já eu penso que o casamento é como uma festa de domingo, onde todo mundo se veste bem, mas nem sempre é tão divertido quanto parece.
Pantaleão assentiu com um sorriso.
— É verdade, Litxi. Mas quem somos nós para entender tudo isso? Estamos aqui, varrendo ruas e discutindo teorias de casamento como se fossemos filósofos de café.
— Pois é, meu amigo. Mas o que importa é que cada um tem sua visão das coisas. E enquanto discutimos essas coisas, a vida continua, as pessoas vão e vêm, e nós aqui, no nosso cantinho, vendo o mundo passar — refletiu Litxi, olhando para o movimento constante ao redor deles.
Enquanto isso, na rua da casa de cinema, os rapazes conversavam animadamente sobre o filme que acabara de terminar. Buluria, ainda um pouco indignado com o cartaz enganoso, disse com voz grave:
— Aquele filme foi uma desilusão total, não foi, pessoal? Prometeram um filme de ação, a apresentaram aquilo, hoje estou contra o senhor de perestroika, um filme de da beju, um romance meloso com um herói de pacotilha.
Domingo Cabalo Barulhento coçou a cabeça.
— A verdade é que não era bem o que estávamos à espera. Mas ao menos deu para tirar uma soneca, né?
Buluria bufou.
— Uma soneca é o que menos precisava, Dimingo. Queria era ter visto um daqueles filmes de cowboy com muita ação e tiroteio. Não esta coisa de meninos apaixonados e promessas quebradas.
Do outro lado do cinema, Mário Tucha, agora encarregado da porta, sorriu para si mesmo ao ouvir as queixas dos rapazes. Era sempre assim depois de certos filmes. Mas ele gostou do trabalho ali dado pelo perestroika, garantindo que todos pagassem o seu bilhete, como o senhor da perestroika lhe tinha ensinado.
Enquanto isso, Nhu Papacho, na sua padaria, continuava a amassar farinha para mais pão para os últimos clientes da noite. Ele gostava de ver as caras felizes dos seus clientes quando provavam os seus pães quentes e saborosos, uma tradição que ele mantinha há anos naquela pequena vila de Tarrafal.
E assim, entre teorias de casamento, deceções cinematográficas e o aroma reconfortante de pão acabado de fazer, a vida seguia o seu curso na tranquila vila à beira-mar.
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