Turismo sexual: quando o paraíso cabo-verdiano se transforma em mercado de corpos
Um fenómeno em crescimento
O debate sobre turismo sexual não é novo. Há muito que se fala sobre homens que viajam para países em desenvolvimento, como a Tailândia, em busca de relações com mulheres locais, muitas vezes em situações de vulnerabilidade. Mas, como revela uma recente reportagem do jornal espanhol El Español, este fenómeno também existe no sentido inverso: mulheres estrangeiras que viajam para Cabo Verde, motivadas pelo envolvimento com homens locais.
Segundo a investigação, mulheres — em particular espanholas — têm escolhido Cabo Verde não apenas pelas suas paisagens, mas também pela possibilidade de estabelecerem relações sexuais ou afetivas com jovens cabo-verdianos. Algumas assumem essa intenção de forma aberta, outras vivem a experiência de forma mais discreta.
Testemunhos e relatos
Uma freira espanhola, Milagros García López, que atua há mais de 20 anos em projetos sociais em Mindelo, descreve diferentes perfis dessas turistas:
As que vêm diretamente em busca de sexo;
As que acabam por se envolver sem admitir;
E aquelas que criam laços emocionais e mantêm relações à distância, enviando dinheiro mensalmente.
No TikTok, multiplicam-se vídeos de viajantes espanholas descrevendo os homens cabo-verdianos como “perfeitos” e partilhando experiências com humor e emojis, normalizando a prática. Um excerto citado pelo El Español chega a afirmar que “em Cabo Verde há mais prostitutos do que prostitutas”.
A outra face: vulnerabilidade social
Embora alguns relatos sejam partilhados como diversão ou exotismo, o contexto social do arquipélago mostra uma realidade mais séria. Cerca de 25% da população cabo-verdiana vive em situação de pobreza estrutural, e o desemprego jovem ultrapassa os 20%. Neste cenário, muitos jovens veem no relacionamento com turistas uma oportunidade de sobrevivência: pagar estudos, sustentar a família ou garantir meses de estabilidade financeira.
A reportagem explica ainda o surgimento dos chamados “Western Union boys”, homens que mantêm relações afetivas ou sexuais com estrangeiras e recebem apoio financeiro regular através de transferências internacionais.
Falta de dados oficiais e resposta limitada
Apesar de ser um fenómeno reconhecido localmente, faltam dados oficiais. O Turismo de Cabo Verde, segundo o El Español, recusou comentar o tema. Ainda assim, organizações humanitárias como a Morabi já identificaram casos de relações de troca entre mulheres estrangeiras e adolescentes no Sal e em Mindelo.
ONG e associações locais tentam atuar, sobretudo na proteção de meninas e adolescentes em situação de exploração, mas os recursos são limitados diante da dimensão social do problema.
Entre o paraíso e o desafio social
Cabo Verde continua a ser um dos destinos mais encantadores de África, mas o crescimento do turismo sexual feminino coloca questões sérias sobre desigualdade, exploração e impacto social.
O fenómeno expõe uma contradição: enquanto o arquipélago se promove como destino de luxo e descanso, parte da sua juventude encontra no corpo e nas relações passageiras uma forma de sobrevivência.
Mais do que uma questão moral, trata-se de um desafio social e económico, que exige diálogo aberto, políticas públicas e investimento em oportunidades para os jovens cabo-verdianos.
imagem:'Paraíso: Amor' - Escena de la película

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