Betinho acusa silêncio das autoridades sobre obra em zona sensível
Desabafo público sobre construção na Praia de São Francisco reacende debate sobre legalidade e desenvolvimento
Betinho, através da sua página “Papito”, publicou um desabafo contundente sobre uma construção em curso na Praia de São Francisco, na ilha de Santiago, levantando questões sobre legalidade, proteção ambiental e o verdadeiro conceito de desenvolvimento em Cabo Verde.
No texto, Betinho critica diretamente a classe política, afirmando que “pulítikus di Kabu Verdi ka tem num izemplo pa da” e acusa as autoridades de permitirem uma obra que, segundo ele, viola a lei ao ser erguida em zona proibida e em distância não autorizada da orla marítima. Para Betinho, trata-se de uma intervenção que compromete não apenas o presente, mas também as futuras gerações.
“Praia di mar é públiko, ka podi tem donu”, escreveu, defendendo que o acesso às praias deve permanecer coletivo e que o desenvolvimento não pode significar a apropriação de espaços públicos por interesses privados. Na sua visão, crescimento económico não pode ser confundido com “rikeza di uns, limiti dos outro nou”, sublinhando que desenvolvimento implica, acima de tudo, respeito à lei.
Betinho também alertou para o impacto ambiental da obra, mencionando que a área em causa é zona de desova de tartarugas, com sinalização e até colocação de pedras para impedir a circulação de viaturas. Segundo ele, a construção estaria a avançar para além desses limites, em área sensível e protegida.
O desabafo gerou reações diversas nas redes sociais. Adilson Lopes Tavares, taxista, partilhou a sua experiência ao promover a Praia de São Francisco junto de turistas de cruzeiros, reconhecendo o potencial do local, mas apontando a falta de infraestruturas, como restaurantes, como um entrave à escolha dos visitantes.
Em resposta, Betinho esclareceu que não é contra o investimento nem contra a criação de infraestruturas, recordando inclusive que já existiu um restaurante de madeira na zona, em conformidade com a lei. O que contesta, segundo ele, é a construção em betão armado em área onde tal prática é proibida.
Outros internautas dividiram-se entre a necessidade de valorização e dinamização económica da praia e a obrigação de cumprir a legislação ambiental. Ariana Ribeiro destacou que infraestruturas são importantes, mas questionou a adequação de betão armado “na meio de areia e a poucos metros de um área protegida de desova de tartaruga”. Já Júnior Lopes levantou a questão da igualdade perante a lei, perguntando se as normas são para todos ou apenas para alguns.
A discussão expõe um dilema recorrente em Cabo Verde: como equilibrar investimento, turismo e crescimento económico com preservação ambiental, legalidade e acesso público aos recursos naturais. No centro do debate está a Praia de São Francisco — mas, como o próprio Betinho sugere, a questão ultrapassa um único areal e toca no futuro das orlas marítimas do país.
Até ao momento, segundo Betinho, as entidades responsáveis mantêm-se em silêncio, o que ele classifica como “vergonha nacional”. O caso promete continuar a gerar debate público nos próximos dias.

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