Cileiza Barros revela história de vida marcada por abandono, acidentes e superação
Cileiza Barros: Carta aberta à menina que aprendeu a sobreviver. ❤️
Se hoje olhares para mim, talvez vejas apenas uma mulher forte. Talvez vejas fotografias bonitas, um sorriso e algumas conquistas. Mas ninguém imagina as batalhas que uma pessoa trava antes de aprender a voltar a sorrir.
Nasci sem conhecer o meu pai. Antes mesmo de eu nascer, a vida separou-o da minha mãe e eles perderam o contacto. Cresci sempre com uma pergunta no coração: “Quem é o meu pai?” Perguntava à minha mãe, mas ela nunca respondia. Hoje já não a julgo. Com o tempo percebi que nem todas as ausências têm um culpado. Às vezes, a vida simplesmente acontece.
Quando eu tinha apenas quatro anos, a minha mãe partiu para estudar e procurar uma vida melhor para nós. Não partiu porque não me amava. Partiu porque acreditava que aquele sacrifício mudaria o nosso futuro. Mas eu era apenas uma criança. Eu não entendia o significado da palavra “sacrifício”. Eu só entendia saudade.
Nunca vou esquecer um Natal em que ela me perguntou ao telefone: “O que queres de presente?” E eu respondi: “Não quero nada... só quero que estejas comigo.” Hoje imagino a dor que ela deve ter sentido ao ouvir aquelas palavras. Hoje compreendo-a e tenho um orgulho enorme da mulher que ela foi.
Os meus avós tornaram-se o meu porto seguro. Crescemos com pouco. Conhecemos a pobreza, mas nunca conhecemos a falta de amor. Nunca me deixaram passar fome, nunca me deixaram passar sede e nunca deixaram que eu me sentisse sozinha. Foram eles que me ensinaram que a verdadeira riqueza está no amor e não no dinheiro.
Mesmo assim, crescer foi difícil. Muitas pessoas olhavam para mim como a menina sem pai e sem mãe. Algumas crianças não queriam brincar comigo. Havia vizinhos que não gostavam que os filhos estivessem perto de mim. Eu não tinha as melhores roupas nem os melhores sapatos, e durante muito tempo pensei que havia alguma coisa de errado comigo. Também houve pessoas que se aproveitaram da inocência daquela menina.
Como eu não tinha a minha mãe nem o meu pai por perto, cresci demasiado cedo e, muitas vezes, aceitei situações que nenhuma criança deveria viver. Hoje sei que não. Eu apenas não tinha aquilo que o mundo dizia que era importante.
Aos seis anos, sofri uma queda que quase me roubou a visão. Bati com a testa numa parede caindo da escada do primeiro andar, os meus olhos encheram-se de sangue e os médicos temeram que eu pudesse ficar cega. Passei um tempo sem conseguir ver normalmente e perdi parte da escola. Ainda tão pequena, a vida já me colocava mais uma prova.
Mas ela ainda não tinha terminado.
Aos nove anos, sofri um acidente que queimou cerca de 70% do meu corpo. Metade do meu rosto ficou afetada. Estive entre a vida e a morte. Sobrevivi, mas sobreviver não apagou as marcas. A minha pele nunca mais foi a mesma. As queimaduras deixaram zonas mais claras, outras mais escuras, e bastava apanhar sol para a diferença aumentar. Eu caminhava todos os dias a pé para a escola, debaixo do sol, e a minha pele queimava com facilidade. Com o tempo comecei a usar cremes apenas para tentar uniformizar essas diferenças. Nunca foi porque tinha vergonha da minha cor. Nunca foi porque queria ser outra pessoa. Era apenas uma menina a tentar sentir-se um pouco melhor ao olhar para o espelho.
Mas ninguém conhecia a minha história.
Pegaram fotografias antigas minhas. Compararam o meu antes e o meu depois. Riram-se. Humilharam-me. Julgaram-me. Disseram que eu não gostava da minha cor, sem fazerem ideia das cicatrizes que o meu corpo carregava. Julgaram uma fotografia, mas nunca conheceram a história por trás dela. E isso doeu mais do que muitos imaginam.
Também fui magoada por pessoas em quem confiava. Uma amizade transformou-se em humilhação pública. Colocaram a minha imagem nas redes sociais, disseram mentiras sobre mim, chamaram-me nomes e fizeram com que milhares de pessoas acreditassem numa versão de mim que nunca existiu. Doeu, porque eu nunca lhes tinha feito mal. E hoje percebo uma coisa...
A vida tentou tirar-me o pai.
Tentou tirar-me a mãe.
Quase me tirou a visão.
Quase me tirou a vida.
Tentou tirar-me a autoestima.
Tentou tirar-me a paz.
Tentou tirar-me a vontade de viver.
E mesmo assim...
não conseguiu tirar-me a fé.
Hoje olho para trás e vejo uma menina que só queria ser amada.
Uma menina que nunca pediu riquezas.
Nunca pediu fama.
Nunca pediu uma vida perfeita.
Só queria um abraço da mãe.
Só queria saber quem era o pai.
Só queria brincar sem ser rejeitada.
Só queria sentir que pertencia a algum lugar.
Hoje essa menina continua a viver dentro de mim.
Mas já não está sozinha.
Hoje sou eu quem a abraça.
Sou eu quem lhe diz que ela era suficiente.
Que nunca foi menos por ser pobre.
Que nunca foi feia por causa das cicatrizes.
Que nunca foi fraca por chorar.
E que Deus nunca a abandonou, nem quando ela pensava que estava completamente sozinha.
Se hoje estou de pé, não é porque fui a mulher mais forte do mundo.
É porque Deus pegou numa menina que o mundo tantas vezes tentou quebrar... e transformou-a numa mulher que nunca deixou de acreditar.
Se a minha história tocar pelo menos uma pessoa e lhe der forças para continuar, então cada lágrima que derramei terá valido a pena. ❤️

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